Aleph era um cara legal, pelo menos ele se achava legal. Nas baladas sempre ficava meio tímido quando ganhava um olhar de alguma gatinha e falar com uma delas então.... Nem pensar. Só se a iniciativa fosse da moça ou se o seu teor alcoólico estivesse alto, bem alto.
Ele andava meio triste com o rumo que sua vida tinha levado: estava em um emprego safado e não tinha dito eu te amo até então... E olha que ela já não era mais um menino há tempos.
Certa vez chegou em casa mais cedo do que de costume - já que para sua infelicidade ou felicidade, foi demitido de seu emprego safado. Estava chateado com o acontecido e pra ajudar mais ainda na sua depressão o dia estava cinza, com um vento gélido e mórbido.
Abriu o portão da casa e como de costume sua cachorra de nome no mínimo dúbio fez a festa de boas-vindas. Ele parou um pouco e encarou o quadrúpede com um ar indagativo, pensou como a cadela podia ser tão feliz se não cruza com nenhum macho e fica sozinha em casa o dia todo...
Depois de tentar em vão conter as demonstrações de felicidades e macaquices do mamífero, se voltou para sua caixa de correio. Não era uma caixa de correio normal, ela tinha suas peculiaridades, a começar pelos moradores que habitavam o seu interior, sim... moradores. Lesmas, que provavelmente já estavam na quinta geração.
Elas adoram comer as contas e correspondências. Certa vez ele não conseguiu pagar a conta de Luz porque as Lesmas devoraram todo o código de barras da conta.
Sua vida estava resumida nesses contatos diários com Lesmas e sua cachorra.
No dia seguinte - no seu primeiro dia com tempo livre, resolveu sair para correr e pensar em tudo que havia acontecido e como encarar as coisas. Mas antes de abrir o portão e sair teve a idéia de verificar se não havia nenhuma conta sendo devorada pelas Lesmas assassinas, abriu a caixa de correio e teve um susto: Não havia nenhuma Lesma, em um primeiro momento ficou triste, pensou que até as Lesmas tinham dado as costas (ou cascos) para ele, mas depois que passou esse pensamento de pobre coitado ele percebeu que havia algo grudado no fundo da caixa, era um postal de Paris...
Levou um belo susto, afinal até onde ele lembrava não conhecia ninguém que morava no estrangeiro, ainda mais se fosse em outro país. :)
Esticou a mão para pegar o postal e algo mágico aconteceu, ele foi sugado para dentro da caixa de correspondência, passou por um túnel colorido e cheio de bolinhas de sabão.
Depois de ser puxado por esse túnel ele foi sair no meio de uma floresta, caiu no meio de um monte de folhas secas. Ainda estava meio tonto da viagem insólita e rápida pela qual havia passado, estava deitado de barriga pra cima recuperando os sentidos e olhando para o céu e as arvores envolta.
Finalmente conseguiu sentar no chão e percebeu que as Lesmas, suas antigas vizinhas, estavam passando em fila ao seu lado. Ele até conseguiu ver membros da família das Lesmas que não conhecia, tinha dois filhotes lindos, todos andando em fila bonitinhos. O ultimo da fila, o menor, virou sua cabeça em direção ao Aleph e disse:
“- Que viagem maneira essa, não!!!???”
Aleph levou um susto – obviamente já estava assustado, pois não é todo dia que ele é sugado para dentro de sua caixa de correspondência. Mas esse susto foi a gota d'água. Pensou que só podia estar em algum tipo de sonho maluco e resolveu deitar-se novamente em cima das folhas secas.
“ - Melhor eu fechar os meus olhos para acordar desse sonho.”
Mas ao invés de acordar ele acabou dormindo. Dormiu por horas ali em cima das folhas secas, bem no meio da floresta. Quando começou o processo de despertar, esfregou os olhos, se espreguiçou, soltou um gemido de dor – afinal o chão da floresta não é o lugar mais confortável para se dormir, ainda mais por horas...
Sua visão ainda estava meio embaçada e pra dificultar ainda mais as coisas, estava começando a anoitecer. Ele virou a cabeça e viu um objeto estranho, a menos de 10cm do seu “pequeno nariz”. Era algo bicudinho, ou melhor, bicudinhos, pois eram um par.
Finalmente conseguiu assimilar que o objeto era um par de botas marrom. Começou então o processo de escaneamento, foi subindo das botas, passou pela saia de cor indecifrável, subiu pela blusa de bolinhas e parou no rosto lindo da moça, tão lindo que ele chegou a esfregar novamente os olhos para se certificar se estava sonhando ou não – se bem que nessa altura ele não tinha certeza de mais nada.
Mas a moça não era só bonita, ela também falava... E falava muito.
“ – Boa tarde viajante, meu nome é o que.“ - disse a linda moça
“ – Desculpe moça, mas não entendi seu nome, qual é mesmo?” – perguntou Aleph que por questão de educação já estava em pé ao lado dela.
“ – Seu bobinho, meu nome É o que.”
“ – Não sei se entendi bem, mas você se chama É o que??”
“ – Isso... ainda bem que entendeu, pensei que iríamos ficar nesse papo forevermente.”
Ele pensou em falar o seu nome, mas ela não perguntou... Então melhor ficar calado. Ele nem ao menos estranhou o nome diferente dela, pois isso era o menos chocante até então...
“ – Mas me diga moço... o que faz parado aqui no meio da minha Floresta?”
“ – A floresta é sua... tipo sua casa?” – Perguntou Aleph em tom meio debochado.
“- Minha floresta é modo de dizer, pois ela não é minha, ela é de todos. Das Lesmas, dos Pássaros Verdes, dos Dragões, das arvores, dos Sacis...”
“ – Guria!!! Falando em Lesmas, você sabia que eu sou vizinho de uma família de Lesmas falantes???”
“ – Lesmas falando??? Isso é a maior besteira do universo que eu já ouvi... e olha que eu escuto muitas besteiras, pois tenho muitas amigas.” – Falou rindo a bela É o que.
Aleph pensou que realmente ele se sai melhor calado.
É o que reparou então um pouco melhor em Aleph:
“-Nossa... você é tão branquinho e magrinho, acho que não anda se alimentando direito. Você aceita um chocolate quente?? Eu moro perto, vamos até lá, mesmo porque já está ficando bem escuro”
Aleph pensou que essa era uma oportunidade perfeita para disparar uma de suas tiradas de mestre.
“- Você mora perto... hum... aceito então o chocolate quente, mas só se você prometer que não irá me colocar no seu caldeirão de bruxa, pois pela suas botas eu já saquei tudo”
Em um primeiro momento ele achou a piada fodástica, mas só em um primeiro momento... Logo percebeu que tinha acabado de ofender É o que e teve vontade de enfiar a cabeça no chão da floresta.
Ela parou, coçou a cabeça, esfregou seu diminuto nariz e exclamou:
“- Nãoooooo você descobriu que sou uma bruxa, espero que não tenha ficado com medo”
Aleph gostou da moça, gostou do seu senso de humor, afinal ele achou que ela estava sendo sarcástica... Pobre coitado.
Rumaram os dois floresta adentro em direção da casa de É o que. Depois de caminharem por cerca de 20min chegaram a uma clareira, lá estava à casa de É o que
Uma casa bem charmosa, cheia de linhas retas. Aleph achou interessante o formato da casa e comentou com É o que.
“-Nossa!!! Sua casa é bem diferente mesmo, tem muitas linhas retas”
“ – Ai... obrigada. É que fiz ela no AutoCad”
Aleph não entendeu foi é nada.
Entraram na casa e ela o levou diretamente para a cozinha. Disse para ele se sentar enquanto ela preparava o aguardo chocolate quente.
Aleph tremeu da ponta do dedo do pé a ponta do fio de cabelo quando viu bem no meio da cozinha, bem ali... Um enorme caldeirão de ferro, um caldeirão cheio de água quente borbulhante. Ele engoliu a seco e sentiu o pavor tomar conta de seu corpo branquelo e magrelo.
É o que percebeu o desconforto de Aleph e comentou:
“ – Não se preocupe bobinho, não irei comer você. Pelo menos ainda não. hahahahahaha”
Para Aleph a risada de É o que já não tinha mais um tom gracioso de antes e sim um tom bruxesco – se é que existe essa palavra.
Aleph pensou com seus miolos que realmente devia estar em um sonho e que não importava, não teria mais medo.
É o que pegou uma caneca linda e mergulhou no caldeirão de água escaldante.
“ – Pegue Aleph, tome seu chocolate quente!!!”
Aleph foi inundado por um mar de pensamentos e questionamentos, ficou segurando a caneca quente enquanto tentava organizar seus pensamentos a fim de soltar a língua.
Depois de quase 2min catatônico com a caneca na mão ele finalmente fala:
“ – É o que, em primeiro lugar: Como sabe o meu nome se eu nunca disse pra você? Em segundo, pensei que você tinha me convidado para tomar chocolate quente, bem... não sou nenhum expert em culinária como você – ela tinha muitos doces coloridos e lasanhas em cima da mesa, mas acho que isso é só água quente. Em terceiro, essa caneca é linda, você se importaria de me dar?? É que eu coleciono canecas. “
“ – Nossa!!! Quantas perguntas. Vou responder todas.
Bem, como sei seu nome??? Não precisei usar nenhum dos meus poderes de bruxa para descobrir, já que você está com uma conta de telefone grudada na sua manga desde que te vi esparramado no chão da floresta, veja... aqui está escrito o seu nome e seu telefone – Aleph ficou vermelho. Vamos a segunda pergunta, ou melhor, vou deixar pra responder a segunda pergunta depois. Quanto a sua terceira, sobre a caneca, Uai.. claro que pode ficar com ela. Nunca tinha conhecido nenhum cara que colecionava canecas, achei no mínimo Gay, mas cada um sabe o que faz, né não???”
Aleph estava radiante – ui... Com a possibilidade de levar a caneca pra casa, realmente era uma caneca linda. De repente eles percebem um barulho estranho... Como se fosse barulho de pulinhos.
É o que disse para Aleph ficar atento as suas ordens, Aleph estava com tanto medo que não ousou questionar nada...
“ - LÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA está ele!!!!! “, grita É o que
Aleph quase desmaia de susto, conseguiu ficar mais branco do que já é.
“ – Venha logo Aleph, traga a caneca com água quente, depressa...”
Os dois ficam parados olhando para o chão, perto do pé da mesa da cozinha. Aleph não estava entendendo nada e já tinha parado de entender algo fazia muito tempo.
Aleph nem acreditou quando viu, esfregou os olhos novamente, ou melhor, dessa vez esfregou um olho por vez já que estava segurando uma caneca com água quente em uma das mãos...
Ele não acreditava no que estava vendo... mas sim, ele estava vendo. Estava vendo um Saci feito totalmente de chocolate, até o gorrinho as pernas, ops... a perna.
É o que soltou outro de seus gritos:
“ – É AGORAAAAAAAAAAAAAA ALEPH!!!!! “
Aleph não se conteve.
“ – Por favor, poderia não gritar tão alto... ou pelo menos avisar quando irá gritar??? Acabei de me derramar água quente por conta do susto” - Falou Aleph com a pele vermelha da água quente...
“ – Não se preocupe seu bobinho... todos os Sacis são surdos, ainda mais os feitos de chocolates, eles são duas vezes mais surdos. Até parece que não sabe, todo o Universo sabe disso.”
Aleph pensou que realmente não devia contrariar a bruxinha.
Então ela disse (só que dessa vez menos alto), para ele pegar o Saci pelo gorrinho e mergulhar dentro da caneca e assim finalmente teria seu chocolate quente.
Aleph nem ousou falar nada, fez o que lhe foi mandado. Pegou o Saci – estava com tanto nojo ao pegar o Saci que parecia até a vez que ele tentou expulsar as Lesmas de sua caixa de correio, só conseguiu pegar a primeira... depois passou a tarde toda enjoado.
Levantou o Saci de chocolate pelo Gorrinho e sem pensar mergulhou a pobre iguaria dentro da caneca, imediatamente a água escureceu e engrossou com o caldo do chocolate do que um dia foi um Saci...
Os dois então voltaram a se sentar e a saborear o chocolate quente, conversaram muito... muito mesmo. Falaram de suas vidas, de seus planos... De seus amigos. Aleph estava feliz, havia muito tempo que ele não tinha uma conversa tão conectada, tão profunda, tão humana – mesmo sendo com uma bruxa.
Ele começou a se encantar pela forma que ela falava, pelo seu sotaque indecifrável, se questionou se todas as bruxas falavam engraçado igual É o que. Ele então reparou no cabelo liso e negro dela, o cabelo mais lindo que ele já tinha visto na vida e provavelmente deveria ser o cabelo mais lindo do universo.
Conversaram tanto que Aleph esfregou os olhos de sono... Mas ele não queria dormir, não mesmo. Mas sentiu que era algo mais forte que ele. De repente ele enxergava É o que cada vez menos nítida e a voz dela ficava mais baixinha – algo que Aleph a certo tempo até gostaria que acontecesse, mas não naquele momento.
Ele só conseguiu escutar as duas ultimas palavras dela.
“ – Dorme não... :( “.
Depois disso, tudo ficou escuro e em um silêncio sepulcral...
Aleph se espreguiçou... Estava novamente deitado na sua cama e coberto até o pescoço, fazia muito frio – pra variar...
Aos poucos foi recuperando as lembranças do sonho incrível que ele teve, ficou rindo sozinho ali, deitado na cama, lembrando da maneira que É o que falava. Mas ao mesmo tempo em que estava rindo estava triste, pois sabia que provavelmente nunca iria conhecer uma mulher igual a que ele havia conhecido nos sonhos.
Ele tratou logo de levantar da cama e parar de ficar com esses pensamentos malucos, tinha que sair para procurar um novo emprego e já era tarde. Deu um suspiro profundo e saiu do quarto, entrou no banheiro e olhou no espelho sua cara amassada de sono e percebeu finalmente que realmente ele estava muito branco.
Pegou sua escova de dentes automaticamente, sem parar de encarar o espelho, fez os movimentos padrões de escovar os dentes... e ao enxaguar a boca deixou a escova cair no chão. Vai ver ele ainda não tinha acordado 100%. Pegou a escova do chão, lavou e colocou ela dentro da caneca.
Caneca????
Levou um susto... e sorriu triunfalmente.
18 Agosto 2011
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